«O acordo ortográfico» [por Manuel Vaz Pires, “Jornal Nordeste”]

O acordo ortográfico

por Manuel Vaz Pires

“Jornal Nordeste”, 06.06.17

Bem suplicou Baptista Bastos “não me tirem o p ao Baptista” mas em vão. As consoantes mudas caíram. Se bem que a mais muda de todas, o h, não. Continua a escrever-se com h no início das palavras excepto talvez em húmido que os brasileiros escrevem sem h (nós também já temos erva apesar de herbário). Talvez que o p de Baptista só fizesse falta ao Baptista Bastos mas o p de óptico ou o c de espectador fazem falta a toda a gente. Óptico sem p pode referir-se aos olhos ou aos ouvidos e espectador e espetador não são a mesma coisa. Neste último caso fica à vontade do freguês escrever com ou sem c, o que só mostra que não houve acordo. No caso de ótico cria-se mais uma homografia que neste caso até se trata de homónimas. Nada que a gente não conheça já, a começar pelo canto dos Lusíadas, o canto de cantar e o canto da sala. Para quê criar mais uma? Só dá para a confusão. Mas com o argumento de aproximar a grafia da fonética também o de Egipto caiu. Agora escreve-se Egito mas os seus habitantes são egípcios porque o p aqui é pronunciado. Como é que ninguém se preocupou com aquilo que os linguistas chamam congruência gráfica, isto é, palavras da mesma família terem a mesma matriz? Mas isso é coisa pouca e além do mais também já tinha caído o p ao prompto. (Bem pior estão os espanhóis que já escrevem sicológico e neumático). E também já tinha “andado” o s à sciência, o g ao Ignácio e à Magdalena (e vem aí a amígdala), o m ao alumno, o c ao Victor. E o c de Victor cai mal porque Vítor é uma palavra grave terminada em r logo tem de ser acentuada. Trocou-se o c pelo acento. Lá se foi o ganho.

As consoantes mudas tinham função. Eram mudas mas faziam falar. Faziam aquilo que em gíria futebolística se diz “jogar sem bola”. Nada na grafia do Português de Lei era supletivo. As consoantes mudas e os sinais gráficos ou tinham função ou tinham história. Assim não nos surpreendamos por ver os políticos dizer acordos com o o aberto ou os masters chefs dizerem molhos com o o também aberto. É um erro mas nada na actual grafia indica se o o é aberto ou fechado. Também nada me diz como devo pronunciar a palavra quando mas toda a gente, ainda, sabe que o “qu” de quando não tem nada a ver com o “qu” de quisto. E até na mais portuguesa das palavras portuguesas, saudade, não há nenhum sinal gráfico que ensine a pronunciá-la bem. Mas dantes havia. O que vale é que ainda nos lembramos que o “au” de saudade nem parecido é com o “au” de pau, de vau e muito menos de lafrau. Mas qualquer dia a tradição oral dá volta a isto.

No uso do hífen gerou-se alguma confusão. É mandachuva mas também é guarda-chuva. É paraquedas mas também é para-brisas. É abre-latas mas também é pé de cabra e é cor-de-rosa mas também é cor de laranja. Uns com hífen outros sem ele. A justificação para a grafia de cor-de-rosa é o facto de ser uma cor que nada tem a ver com a rosa uma vez que esta pode ter várias cores. Já cor de laranja é a cor da laranja. Sendo assim penso que cor-de-burro-a-fugir estará assim bem grafado pois não se sabe quem é o burro.

Também a ligação por hífen, das formas verbais monossilábicas do presente do indicativo do verbo haver à preposição de, é suprimida. Por ex: antes escrevia-se hei-de e agora é hei de. Estranho particularmente esta alteração na ortografia porque o Acordo de 45 era categórico quanto à obrigatoriedade do uso do hífen neste caso. Este caso não é de omissão ou negligência. É mesmo um caso de opiniões contraditórias com exibição dos suportes teóricos. (Os linguistas de hoje sustentam que o de em causa é proclítico, isto é, que ode está associado à acentuação da palavra seguinte não precisando pois do traço de união com a palavra precedente. Por outro lado, a ligação do de ao verbo haver é tão forte que até inconscientemente conjugamos o verbo com o de às costas. Ou não é verdade que dizemos, eu hei-de, tu hás-de… etc? Quando devia ser eu hei, tu hás, etc. Associamos o de embora não pertença à conjugação). O que é que os linguístas de 45 viram que estes não viram ou vice-versa? Ou então, que é que de substantivo mudou de então para cá que justifique a alteração? Nas alterações à grafia estão presentes, na quase totalidade dos casos, dois contributos: a etimologia e a fonética. Etimologicamente, as palavras portuguesas vêm do Latim ou do Grego, línguas mortas portanto há muito imutáveis. Logo, qualquer alteração na grafia das palavras deriva de uma aproximação maior à fonética das mesmas. Ora, o suprimir o hífen em hei-de sugere-me uma pergunta, por brincadeira: quando é que deixámos de pronunciar o hífen?

Não sou um entusiasta deste Acordo. Nas alterações propostas só o argumento economicista me poderá convencer. De resto traz mais transtornos que simplificações. Foi o Acordo que ninguém pediu a não ser, talvez, os editores e livreiros. O número exagerado de homografias só pode criar confusão. Além disso as duplas grafias mostram que não se chegou a acordo em muitos casos. (Não tem nada a ver com a dupla grafia em repertório/reportório onde embora sendo certa a primeira grafia o povo impôs a segunda. Ou dos dois plurais de corrimão). Acresce ainda o facto de não terem sido consideradas as palavras de origem bantu e as de origem malaio-polinésias o que deixou os angolanos e moçambicanos à beira de um ataque de nervos, a ponto de Angola ainda não ter ratificado o acordo. Ressalva-se aqui a modestíssima contribuição de Malaca Casteleiro que introduziu BUÉ no seu dicionário. (Quem pensa fazer acordos não pode ter tiques neocolonialistas. Ou será que a única coisa que interessava era o mercado brasileiro?)

Não sou, pois, entusiasta deste Acordo. E não me venham com o argumento balofo que as línguas faladas são entidades com vida própria, não são estáticas antes têm dinâmicas que há que ter em conta. Mas aqui não se trata da língua mas sim do código que preside à forma de a grafar. E não encontro alterações substantivas que justifiquem alterações na ortografia. Antes pelo contrário defendo um regresso às origens, criar uma espécie de referencial, para memória futura, do qual se partiu para o que é hoje. E isto porque a nossa língua corre o risco de desaparecer, tal como a conhecemos, mais cedo do que parece. Passo a explicar mas para isso tenho de fazer um enquadramento.

Há 50 anos Marshall McLuan, uma espécie de Júlio Verne da comunicação, anteviu a “internet” e a sociedade da comunicação que hoje temos. Comunicações fáceis, rápidas, baratas, em tempo real e para todo o mundo. O mundo pareceria mais pequeno, tudo ao alcance da mão, o que o levou a chamar-lhe a “Aldeia Global”. Como não imaginava quais eram as ferramentas dessa comunicação mas sabendo que não era pela escrita chamou a essa sociedade, para ele do futuro, sociedade “post-Gutenberguiana”. O que é um facto é que ele acertou na “mouche”. É o que temos hoje e não pára aqui. A forma como os mais jovens se ligam nas redes sociais, enviam SMS(s), comunicam por Skype mostram que a “Aldeia Global” já está instalada. E o ritmo de comunicação é de tal forma frenético que levou os jovens a simplificar palavras, criar outras e aplicar muitas terminologias sobretudo em inglês. (Já vi uma mensagem assim datada: 2KY. y de year, ano em inglês; k múltiplo 1000 em sistemas métricos decimais como em kg ou km. Era portanto o ano 2000. (Faz lembrar, nas devidas proporções, os discursos de Lucas Pires que os seus detractores rotulavam de conjunto de helenismos, latinismos, galicismos e algumas palavras em português mas que eram tão cheios de sentido e plenos de humor. Ia buscar a palavra certa não importava a que cultura.)

Se McLuan visse a Internet com o seu potencial de comunicação ficaria feliz por ver que estavam certas as suas teorias sobre a “Aldeia Global”. Mas não ficaria menos feliz e orgulhoso Jean Piaget por ver aqui um caso prático da sua teoria construtivista. “O Homem constrói o seu próprio conhecimento” assim enunciava ele a síntese da sua teoria. E os jovens de hoje com o seu vocabulário próprio, com a utilização de símbolos das mais diversas áreas de conhecimento e a forma telegráfica que dão à comunicação, criaram o seu próprio conhecimento. Afinal a “geração rasca” era bem mais que aquilo que alguns vaticinavam.

Em face disto penso que em pouco tempo a (orto)grafia dominante será a dos SMS porque além de ser muito mais simples, serem muitos mais os utilizadores e muitíssimo mais dinâmicos. A ortografia actual passará a ser, só, objecto de investigadores linguísticos. Por isso, este deve ter sido o último Acordo Ortográfico. O próximo deve ser um Acordo Fonético. Até aqui houve a preocupação de acertar a escrita pela fonética. No futuro terá de se arranjar uma fonética para a escrita agora emergente.

Manuel Vaz Pires

[Transcrição integral (incluindo destaques) de artigo da autoria de Manuel Vaz Pire publicado no “Jornal Nordeste” em 06.06.17. Adicionei “links” ilustrativos. Imagem de topo de: MasterWord. ]


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