“Lusofonices”

Editorial ortográfico

Colocar ou não o acento diferencial para distinguir o que é pôde do que é pode, dois tempos distintos do verbo poder, duas palavras com significado e pronúncia diferentes, mas escritos da mesma forma, segundo o acordo ortográfico em vigor da língua portuguesa, seguido pelo Brasil. Por que tiraram o trema de conseqüência? Uma conseqüência sem trema não tem conseqüência alguma.

O Opinião&Política deixou claro, desde os seus primeiros passos, lá se vai quase um ano, que não pratica o acordo ortográfico. Aqui, escrevemos idéia com o seu acento agudo, pára do verbo parar com acento agudo, pôde do verbo poder com circunflexo, e não abrimos mão do velho trema.

Mas, qual é mesmo a conversa? Qual é mesmo a do Brasil em relação a esse acordo? O Brasil, na verdade, sempre nadou na maré contrária nessa história. Não adotou o primeiro modelo de acordo ortográfico proposto por Portugal no início do século XX. A partir daí, tentou-se buscar um acordo. O primeiro foi assinado em 1931, mas foi interpretado de maneira diferente por Brasil e Portugal. Para dirimir as dúvidas, foi assinado um novo acordo ortográfico em 1945, mas só Portugal aplicou.

Em 1990, depois de intermináveis tratativas, foi assinado o novo acordo ortográfico, o qual, no entanto, só veio a entrar em vigor em 2009. Também dessa vez não colou de todo. Foi firmada uma nova data para entrada em vigor do acordo: 1o de janeiro de 2013. O novo acordo foi feito para unificar as duas ortografias oficiais do português, uma adotada pelo Brasil e outra pelos demais países lusófonos. Há mais de cem anos Portugal e Brasil tentam unificar a maneira de escrever. Não é fácil, nunca foi. Principalmente porque é preciso respeitar caminhos linguísticos adotados por cada cultura nacional.

O Brasil, como sabemos, nunca foi de ser grande partícipe das comunidades de nações das quais efetivamente participa. Como é o caso o conjunto das nações latinas sul-americanas, de fala espanhola. Sob o argumento da diferença linguística, o Brasil sempre manteve uma distância olímpica dos hermanos latinos, considerando-se como que um continente próprio.

Com os irmãos de língua portuguesa a situação é parecida. Os brasileiros constituem a maioria absoluta das pessoas que falam português no mundo e consideram-se donos do idioma. Os portugueses não engolem o acordo, um dos seus jornais mais importantes, O Público, recusa-se a respeitar a língua portuguesa que querem lhe enfiar garganta abaixo. O editor do jornal, Nuno Pacheco, é uma das vozes mais fortes contra o acordo ortográfico, defendendo que ele não seja respeitado pelos portugueses.

O pau continua a comer. A lexicógrafa portuguesa Ana Salgado, coordenadora do novo dicionário da Academia de Ciências de Lisboa, defende a reposição dos acentos diferenciais entre palavras homógrafas que gerem ambigüidade, e cita como pedra de toque a diferenciação entre o verbo pára e a preposição para. A Academia de Ciências de Portugal pretende apresentar ainda mês um estudo propondo modificações no pára e para, no pêlo e pelo, bem como a reposição das consoantes mudas. De modo que os brasileiros vão ter que escrever director, actor e óptima, entre outras lusofonices. E aí, vocês acham que vai colar?

Daqui, do fundo da planície, o Opinião&Política, sob esse ponto de vista, informa que está com os portugueses e pretende continuar desrespeitando amplamente o atual acordo ortográfico e todas as suas reformas. Mas, não vai botar consoante muda em coisa nenhuma.

[Transcrição de “Editorial ortográfico”, publicado por “Opinião&Política” (Brasil) em 23.01.17. Obviamente, mantive a ortografia brasileira do original. Destaques e “links” meus. Imagem copiada de “hardstand“.]


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