Uff, foi por um triz!

macgyver«O Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang, foi convidado a visitar a sede da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) em Lisboa, confirmou o PÚBLICO junto daquela organização. O convite partiu do secretário-executivo da CPLP, o diplomata moçambicano Murade Murargy.» [“Público”]

«Portanto, em suma, estamos perante uma bizarra situação de facto consumado: a poucos dias de deixar o cargo, um diplomata estrangeiro convida o ditador Teodoro Obiang para uma visita oficial a Portugal.

Se isto não é uma ingerência nos assuntos internos da República Portuguesa, então ou não existem ingerências ou não há República ou ainda, última hipótese, há República mas não é portuguesa. Com certeza.»

Incidente diplomático”, 23 de Junho 2016


13 dias depois de aquela bomba-relógio ter sido activada e apenas um pouco antes da detonação, alguém desligou o mecanismo in extremis, para alívio geral. Uff, foi por um triz!

Fica a dúvida sobre quem o terá feito, ao certo: terá sido algum fã do célebre MacGyver, esse cromo especializado em cortar fios de cronómetros em contagem decrescente, ou será que finalmente o Ministério dos Negócios Estrangeiros português resolveu fazer alguma coisinha para acabar com a brincadeira?

Mas se esta dúvida permanece, com uma certeza podemos todos ficar: se aquilo tivesse ido avante estaria a nossa diplomacia metida num enorme sarilho, que a coisa, como agora se vê, era mesmo uma provocação, a dita brincadeira teria sido de facto um gravíssimo incidente diplomático.

O que espectacularmente denotam as desculpas (além das esfarrapadas a “bold”, sublinhei as anedóticas na notícia) apresentadas para justificar o cancelamento da visita do ditador Obiang a Portugal.

Desculpas esfarrapadas e anedóticas das quais a mais “engraçada” é esta: «Obiang não vem a Lisboa por estar a formar governo no seu país».

Ora, essas tais “eleições” foram há quase três meses e Obiang foi “reeleito” com… 93,7% dos “votos”!

Portanto, tendo sido “eleito” por tão esmagadora margem e não tendo praticamente oposição (dizem más-línguas como a CIA ou a Amnistia Internacional que ele praticamente não tem oposição porque fisicamente a elimina), não deverá ter grandes dificuldades em “formar governo”. O qual (governo), de resto, já estava formado e foi reconduzido: «Presidential elections were held in Equatorial Guinea on 24 April 2016. In a vote initially scheduled for November but brought forward by seven months, incumbent President Teodoro Obiang Nguema Mbasogo retained his office with 93.7 percent of the vote.» [Wikipedia]

DN_logoPresidente da Guiné Equatorial cancela visita à sede da CPLP

Segundo o secretário-executivo da CPLP, Obiang não vem a Lisboa por estar a formar governo no seu país

06 DE JULHO DE 2016 12:32
Lusa

O Presidente da Guiné Equatorial cancelou a visita à sede da CPLP, em Lisboa, prevista para sexta-feira, e vai enviar “em breve” uma missão para preparar a sua deslocação a Portugal, disse hoje à Lusa o secretário-executivo da organização.

“A visita do Presidente da Guiné Equatorial não se vai concretizar”, afirmou o responsável da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Murade Murargy, referindo que o Teodoro Obiang Nguema justificou não estar “em condições” de sair do seu país por estar a formar o seu Governo, após as eleições de 24 de Abril.

Fonte da CPLP tinha anunciado, no início da semana, que o Presidente equato-guineense visitaria a sede da organização esta sexta-feira de manhã, uma recepção que foi preparada, apesar de o secretário-executivo não ter confirmação oficial, como indicou à Lusa esta terça-feira.

“Depois da formação do Governo, vai enviar uma missão a Portugal para acertar todos os detalhes da visita” com as autoridades portuguesas, disse Murargy, que acrescentou desconhecer qual o teor da visita que Teodoro Obiang pretende fazer ao país.

Murade Murargy mencionou que Obiang é “muito religioso” e quer visitar o Santuário de Fátima e recordou que, logo após a entrada da Guiné Equatorial na CPLP, há dois anos, o Presidente indicou que o primeiro país que queria visitar era Portugal.

Mas, para vir a Portugal, o Presidente “tem de ter uma concordância das autoridades portuguesas“, e, em função disso, definir se se tratará de uma visita de Estado ou visita privada.

Questionado se o cancelamento da visita se deveu a uma falta de articulação com o Governo e Presidência da República portugueses – que disseram desconhecer a intenção de Teodoro Obiang de se deslocar ao país -, Murade Murargy respondeu: “Pode ser isso, e outro factor é que ele não estava preparado para vir agora“.

Essa articulação, mencionou, cabe ao embaixador acreditado em Lisboa. “Eu não me preocupo com essa parte. Eu parti do princípio de que essa articulação estava feita, salientou.

À pergunta sobre se o anúncio desta visita pretendeu testar a reacção das autoridades portuguesas, Murargy negou e sublinhou que Teodoro Obiang tem, há muito, o desejo de vir a Portugal.

“A visita à CPLP vai-se manter, quando o Presidente Obiang vier a Portugal, qualquer que seja a natureza dessa visita”, assegurou.

Murade Murargy, que, na qualidade de secretário-executivo da CPLP, convidou Teodoro Obiang a visitar a sede da organização, garantiu que o seu convite se “mantém de pé”.

“A Guiné Equatorial é o mais recente membro da CPLP. Qualquer dirigente de um Estado-membro tem o direito de visitar a sede da organização“, disse.

Questionado se a visita de Obiang à sede da Comunidade pode acontecer antes do final do mandato como secretário-executivo – que deverá terminar este ano, na cimeira que se realizará em Brasília -, Murade Murargy respondeu que sim.

“Eu fiz-lhe ver isso, que estou quase a acabar o meu mandato e era bom que visitasse antes”, mencionou, recordando que responsáveis de todos os Estados-membros da CPLP já visitaram a sede e que faz sentido que o mesmo aconteça com a Guiné Equatorial, que é o membro mais recente.

O responsável da CPLP afastou a possibilidade de o Presidente Obiang estar presente nas cerimónias que vão assinalar o 20.º aniversário do bloco lusófono, no próximo dia 18, a decorrer na sede da organização.

A Guiné Equatorial, único país de língua espanhola no continente africano, aderiu à CPLP em Julho de 2014, após a definição de um roteiro que previa a disseminação do português no país e uma moratória sobre a pena de morte, de que Portugal foi um forte defensor.

O regime de Teodoro Obiang, no poder desde 1979, é acusado por várias organizações da sociedade civil de constantes violações dos direitos humanos e perseguição a políticos da oposição.

[Transcrição de notícia “Diário de Notícias”/LUSA, 06.07.16. Adicionei destaques, sublinhados e “links”. Imagem de Young Hollywood.]


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