O silêncio dos culpados

CPLP_Obiang«É altura da União Africana, os Estados Unidos, Espanha e União Europeia enviarem ao Presidente Obiang uma mensagem clara de que uma verdadeira reforma já tarda, e que as suas violações aos direitos humanos terão um custo.»

“Maravilhoso”, não é? Quanto a países e organizações internacionais, estamos conversados: nem Portugal nem a CPLP são para aqui chamados. Pois, pudera! Enquanto qualquer país civilizado recusa que Obiang sequer lá ponha os botins, em Portugal abre-se a Embaixada da Guiné Equatorial  e a CPLP, cuja sede é também em Portugal, admite de braços abertos, como membro de pleno direito, o desgraçado país do ditador.

logo_shareO líder africano há mais tempo no poder prepara-se para novo mandato

Francisca Gorjão Henriques

24/04/2016 – 14:01

Obiang Nguema avisou que é “o candidato do povo”. Acusado de corrupção e violações aos direitos humanos, o Presidente tem seguros mais sete anos à frente da Guiné Equatorial.

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Os principais partidos da oposição optaram por um boicote e os que participam são caras desconhecidas para a maioria dos habitantes da Guiné Equatorial. Mais uma vez, não se esperam surpresas quando forem anunciados os resultados das presidenciais deste domingo no país. O Presidente Teodoro Obiang Nguema, o líder africano há mais tempo no poder, 37 anos (leva um mês de avanço sobre o angolano José Eduardo dos Santos), será seguramente eleito para um novo mandato.

A votação tem decorrido num clima de tranquilidade, sem incidentes, descreve a AFP. Obiang Nguema avisou no início da campanha que é “o candidato do povo”. “Quem não votar em mim rejeita a paz e opta pela desordem”. Nas últimas presidenciais, em 2009, teve 95,37% dos votos. O desfecho deste escrutínio, que só será anunciado no dia 28 de Abril, não deverá andar longe disso.

“O resultado é conhecido à partida graças às várias irregularidades e fraudes já preparadas”, afirmou à AFP no início da campanha Andres Esono, secretário-geral do partido Convergência para a Democracia Social (CPDS), o único partido da oposição com representação no Parlamento, com um deputado e um senador. Esono avisou que não reconhecerá “o Presidente saído da eleição”.

Nos boletins de voto, os mais de 330 mil eleitores irão encontrar novas caras, ou figuras sem peso na política da Guiné Equatorial: Bonaventura Monsuy Asumu, do Partido da Coligação Social Democrata (PCSD), Carmelo Mba Bakale, da Acção Popular da Guiné Equatorial (APGE), Avelino Mocache Mehenga, da União do Centro de Direita (UCD), e três candidatos independentes cujos partidos não estão sequer legalizados.

A oposição que poderia fazer frente ao Presidente não está lá, porque a Frente da Oposição Democrática (FOD, que junta dez partidos) anunciou um boicote, a 23 de Março, acusando o processo de ser fraudulento.

Obiang Nguema chegou ao poder em 1979, num golpe que derrubou o seu tio Francisco Macias Nguema – que liderava o país desde a independência da Espanha, em 1968, e que espalhara um regime de terror.

O seu regime é frequentemente denunciado por organizações de direitos humanos, que acusam o Governo de corrupção, perseguição aos opositores e violação da liberdade de imprensa – a Guiné Equatorial está em 5.º lugar na lista do Comité para a Protecção dos Jornalistas com os países que mais exercem censura, e em 167.º entre os 180 países do Índice da Liberdade de Imprensa de 2015, dos Repórteres Sem Fronteiras. A Amnistia Internacional afirma que torturas e detenções ilegais são uma prática comum.

Não admira por isso que a inclusão do país como membro de pleno direito na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) deu origem a um coro de críticas, às quais se respondeu com a promessa de avanços no terreno que tardam em chegar.

“A violência e a perseguição às vozes independentes por parte do regime de Obiang afecta uma eleição à qual já faltava legitimidade”, comentou Tutu Alicante, director executivo do grupo EG Justice, citado pelo site AllAfrica. “É altura da União Africana, os Estados Unidos, Espanha e União Europeia enviarem ao Presidente Obiang uma mensagem clara de que uma verdadeira reforma já tarda, e que as suas violações aos direitos humanos terão um custo”.

Alguns opositores acusam essas potências de conivência com o regime, que é o terceiro produtor de petróleo da África subsariana. Desde 1992 que se instalaram no país várias empresas estrangeiras, sobretudo americanas, para fazer a extracção.

Mas apesar de ser um dos estados mais ricos de África (o rendimento nacional bruto por habitante foi de 10210 dólares em 2014), mais de metade dos 820 mil habitantes vivem na pobreza, com apenas dois dólares por dia. No Índice de Desenvolvimento Humano que mede o desenvolvimento económico e social, e conta com 187 países, aparece em 144º lugar. A Guiné Equatorial tem o maior fosso entre rendimentos per capital e desenvolvimento humano do mundo.

Ainda assim, Obiang está pronto para mais um mandato de sete anos. “Muitos dizem que estão cansados da minha figura, já passaram 36 anos, sim, mas dediquei a minha vida a este país”, disse.

[Transcrição de artigo do “Público” de 24/04/2016 . Adicionei “links” e destaques.]


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